domingo, 23 de outubro de 2016

Departure



Com uma estética minuciosa e laboriosa com ênfase nas cores, nas afeições e nas representações visuais, Departure de Andrew Steggall se inicia com uma cena isolada de fuligens. E só compreenderei o significado desta cena quase ao final do filme que dura cerca de duas horas. Finalmente consegui assistir a este filme após dois anos de espera, e a sua primeira cena me foi surpreendente porque tenho um poema sobre fuligens, e este está a falar exatamente sobre o ocaso e as afeições.

São inúmeras as referências consagradas ao longo de toda a trama. E me senti beneficiado por todas elas, principalmente quando o filme apresenta o humano em sua nudez contemplativa e visceral, seja nas notas do piano responsáveis pela organicidade das cenas, seja nas representações da cor azul do céu refletida ora no espelho de um lago adormecido, ora nos lençóis do adolescente Elliot (Alex Lawther), ora nas representações visuais de São Sebastião, e também do Jovem Nu Sentado a Beira do Mar (1855) do pintor francês Jean-Hippolyte Flandrin, minha pintura favorita depois de algumas de Caravaggio.

E é exatamente sobre a juventude e o ocaso dela que Departure desenvolve o seu mote e nos prende atenção; é como se Andrew Steggall quisesse nos dizer que aquele jovem nu de Flandrin tem uma história, e que essa história contempla o nosso íntimo. A produção é franco-inglesa.

Uma mulher inglesa forte, Beatrice, interpretada por Juliet Stevenson, viaja com seu filho Elliot, de quinze anos, para o interior do Sul da França. O que parecia uma viagem simples de férias apresenta-se enquanto uma viagem repleta de sentidos perdidos entre o passado iminente e o futuro também iminente: ambos vão se encontrar para provocar a catarse e a irrupção.

Beatrice traz consigo uma carga emocional que salta pela sutileza dos seus gestos, da fala contida, da sensação do vazio. Elliot é a personagem mais efusiva, em primeiro instante porque a sua razão de ser é apresentada apenas para justificar o sentido dado aquela casa de veraneio, às emoções reprimidas de sua mãe, e a representação suprimida da possibilidade de um pai ausente. Segundo porque Elliot ganha forma e sentimento quando este conhece Clement (Phenix Brossard), tudo aquilo que ele não é, mas gostaria de ter, talvez pelas ausências e, ainda, pela coragem de desejar a vida.

Elliot quer ser escritor, ele fala isso ao comerciante dono do café, e repete ao amigo Clement. Todavia Clement me parece nada mais que uma projeção possível e cerceada, de um adolescente cuja família destruída pela condição econômica e pela doença, se encontra no entrelugar de onde a saída não parece viável, sequer a possibilidade do amar.

Por falar em amar, eu já discorri em outro texto a respeito do filme The Normal Heart, o quanto nossa sociedade nos ensina que meninos não amam, e não devem amar. E Clement, mesmo vivendo no campo, no interior do Sul da França, parece também ter aprendido essa lição.

As personagens principais, Elliot, Beatrice e Clement se abraçam solitárias em suas dores e ausências, porém repletas de si. Ao que me parece, nenhum deles dependem um do outro para se convergir sujeito. São autônomos em discurso e devir. Apesar de mulher, subjugada e triste, Beatrice se abraça, assim como nos representou Flandrin acerca de nossas solidões; Elliot também se abraça sob a chuva, a margem do rio ou dentro dele... Tem-se todos os elementos que reificarão a iconografia renascentista e a visão do neoclassicismos: os desenhos dos torsos, a nudez despudorada e com conteúdo ambivalente.

Elliot que parecia inicialmente representar a fraqueza e a falta, assim como a ausência da virilidade, toma para si o lugar do protagonista ao se jogar ao rio e apresentar o corpo clássico e alvo retratado por Flandrin. É neste momento que Steggall rompe com os paradigmas e faz eclodir o seu desejo pela subversão. A ordem foi rompida, e Elliot passa a existir em sua integralidade física e moral.

Os diálogos ao longo de toda a trama são permeados pela delicadeza do silêncio e das interpretações. A fotografia minimalista, detalhada seja nas representações sonoras do cantar dos pássaros, do tilintar da louça e talheres, do sopro do vento ao trepidar dos galhos, da madeira tomada pelas chamas, da água de um lago, ou das gotículas da chuva. Apesar de se tratar da estreia de Andrew Steggall no cinema mundial, Departure já está na minha lista de cinema autoral e de qualidade. É muito cedo ainda para dizer que entendo sobre a sua marca, mas acredito que a promessa se faz enquanto vida e arte.

domingo, 29 de maio de 2016

O Sorveteiro do Largo na Casa dos Espelhos - Parte I (Da série amor afrocentrado)


La Barbier Nègre à Suèz (1876) - Léon Bonnat
(Galleries Curtis, Minneapolis, Minnesota)



Leandro trabalhava pesado na sorveteria do Largo desde os doze anos. Perdia os olhos no reflexo de vozes que invadiam os ouvidos, no entra e sai de clientes apressados dentro dos seus dias corridos e importantes. Ele via na bancada de alumínio um espelho descentrado com o fragmento das almas das pessoas ilustres na direção da vida.

Em meio aquele arco-íris de sons, o silêncio fúnebre e escurecido, Leandro não parecia tranquilo naquela tarde de maio, pleno domingo de calor e movimento. Foi quando avistou ao longe a forma de um sentimento que lhe arrebentava o peito, estatelando o coração a empurrar o ar prensado nos pulmões.

O mês de julho arrastou-se lento e desalinhado. Naqueles dias, Leandro gostaria mesmo era de estar na escola a concluir o seu segundo grau e a saborear as férias entre semestres. Ele havia parado de estudar há três anos, quando o senhor Gervásio não o permitiu manter-se no trabalho por meio período. Se quisesse ser promovido à atendente haveria de ser dedicado; era somente dele a escolha: o dinheiro ou a escola. Depois disso, apenas o braço com o apoio das mãos sustentavam aquela cabeça abarrotada de sonhos possíveis.

No dia do mês em que se organizava a faxina, o estoque era reservado aos fundos, o atendimento era restrito aos itens dos armários e geladeiras no salão. E descalço, com os pezinhos negros enrugados com a abundância da água e do detergente, Leandro empurrava a sujeira com o rodo a observar o seu reflexo escuro e transfigurado por sobre a lâmina aquosa por entre a espuma. O piso de granito acinzentado recobria suas ilusões estanques, ainda que pisasse sobre ele, sentia-se parte daquele pedaço de rocha em grânulos.

Com o cabo do rodo em mãos, Leandro se virou para a porta entreaberta e recostou-se na pilastra a sustentar os andares de cima do prédio. O reflexo turvo de fragmentos possíveis denunciava a presença aturdida de um homem negro com barba cheia, vestido em seda azul marinho; o mesmo que um dia inspirou-lhe a vida naquela tarde de maio em que os sons criavam arco-íris refletidos no alumínio do balcão da loja. O timbre grave ressoava uníssono com as palpitantes aceleradas do seu peito. O homem perguntou a ele a respeito dos sorvetes com o sabor da fruta-do-conde. Leandro mal respirava em pausa, e deixou que o moço seguisse sem resposta.

Havia de ter dito algo - pensou depois do seu regresso. Saiu sem que se atinasse do intento. Era cliente recente, pouco assíduo. Um novo professor universitário da cidade... O senhor Gervásio cutucou-lhe a cintura e pediu a Leandro agilidade. Leandro devia acordar do sonho afrocentrado e não mais se enxergar refletido. Haveria de ser dedicado ao ofício, rapar a água e secar o piso. Outra vez acordado se percebeu imóvel sobre aquele pedaço granulado de rocha.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Luis Miranda é a Sofia de A Cor Púrpura






Em 1985 eu tinha três anos de idade. Foi quando estreou nos cinemas norte-americanos o filme A Cor Púrpura de Steven Spilberg, um cineasta estadunidense de descendência judia, muito famoso e muito aclamado pela crítica especializada. Spilberg foi responsável por grandes marcos na história mundial do cinema ao falar sobre as mazelas históricas de seus ascendentes e também das políticas atuais.

O que pouco se sabe é que A Cor Púrpura não nasceu exclusivamente da mente de Spilberg, mas de uma escritora estadunidense negra chamada Alice Walker, aclamada e conhecida pela crítica especializada.

Não quero propor grandes teorizações, nem utilizar palavras difíceis, muito menos pretendo fazer uma resenha sobre o filme. Mas achei interessante propor este diálogo diante da grande hostilidade com que vem sendo tratado o ator Luis Miranda, por ter enviado um bilhete mal educado para uma cliente branca que o teria tratado por garçom durante jantar em um restaurante japonês no Rio de Janeiro. O que me impressiona neste fato é como a mídia em geral, e os comentaristas da Internet vêm enfatizando o preconceito de Luis Miranda para com a classe de garçons, e principalmente dizendo que o ator, assim como muitos negros sofrem racismo invertido, e também, o quanto o Luis Miranda foi grosso, indelicado, deselegante, desrespeitoso, imbecil e selvagem para com aquela inocente senhora.

Na verdade não há nada de errado no fato de a grande maioria tomar as dores da senhora branca e defenderem ela como tendo tido um ato impensado, despretensioso, inocente, sem cunho racialista, sem pretensão de lembrar ao ator do seu “lugar inadequado”. Os comentaristas que defendem a inocência desta senhora e culpabilizam Luis Miranda são a mais pura síntese de como o racismo é estrutural, geracional e está vivíssimo no Brasil. Afinal de contas são poucos 128 anos de Abolição. Um país de maioria miscigenada que experimentou por quase 400 anos a escravização compulsória, ilegal, e humanamente depreciadora da dignidade humana. O mesmo país que se recusa a reconhecer a fala e as potencialidades das pessoas negras.

A Cor Púrpura se passa no hiato entre 1909 e 1949, o filme fala sobre o racismo, machismo e classismo. Também discorre sobre laços e afetividades. Cita Oliver Twist, um dos meus livros favoritos.

A cena que separei é uma das que me provocam catarse todas as vezes em que assisto o filme. Gosto de ter meus filmes e gosto de vê-los sozinho. E é nesse momento que me reservo a chorar sem a necessidade de ser questionado pelo motivo de tê-lo feito. Enfim, vamos para a cena em questão...

Sofia (Oprah Winfrey) é a cunhada de Miss Celie (Whoopi Goldberg). Ela é uma das personagens que mantém um padrão de vida confortável. Cultiva e produz o seu sustento a partir da sua terra. Nos Estados, ao contrário do Brasil, houve uma conquista econômica da parte de ex-escravos, condições de possibilidade proporcionadas pelo Estado para que eles [os negros] pudessem gerar emprego e renda, e assim consumirem.

Não existe sistema capitalista sem o consumo. O Brasil é um dos poucos países capitalistas que nunca pensaram que deveriam dar condições aos seus ex-escravos de darem boa engrenagem ao sistema, tanto de modo intelectual quanto econômico.

Na cena em questão, Sofia passeia pelo comércio na cidade com seus dois filhos em seu veículo. Ela quer comprar, assim como todos aqueles que possuem renda para isso. E um padrão de vida que favoreça o consumo.

No pequeno vilarejo ela é interpelada por uma senhora branca bastante inconveniente que, sem qualquer autorização, começa a apertar os filhos de Sofia, beijar suas faces e acariciá-los, como se eles fossem objetos públicos para o deleite dela. Sofia não a censura, embora demonstre não ter gostado da atitude daquela senhora.

A senhora ‘inocentemente” ignora a condição econômica de Sofia apresentada pelo luxo de suas roupas, e, baseada pelo seu preconceito diante da cor da pele de Sofia, faz um convite bastante ofensivo a ela. A convida para ser a sua “Mammy”, no Brasil seria a clássica empregada doméstica. Sofia se ofende e recusa o convite também de modo ofensivo, mas ao contrário dela, a branca entende que Sofia jamais deveria se comportar de modo tão, digamos: grosseiro, indelicado, deselegante, desrespeitoso, imbecil, e selvagem para com uma senhora branca.

Imediatamente o marido da senhora branca toma as suas dores e vai até Sofia pedir que ela se desculpe com a sua esposa. Sofia não o faz, e então, o senhor branco decide que ela deverá ser punida com um soco na face, para que Sofia nunca se esqueça que ela deve ser delicada, obediente, resiliente, e muito passiva quando se dirigir a uma mulher branca. Sofia não deverá nunca se esquecer de que ela tem uma autorização para conviver em “harmonia” com os brancos, desde que os códigos dos brancos sejam sempre respeitados. Mesmo que isto implique na supressão de qualquer manifestação de descontentamento da sua parte. Qualquer atitude de Sofia poderá fazer com que o branco a puna severamente, pois as Sofias são constantemente policiadas.

Não demora muito para que todos os brancos se unam e comecem a espancar e xingar Sofia, afinal de contas “que negra inadequada! Ela deveria ser, no mínimo obediente e educada.”

Luis Miranda é a Sofia de A Cor Púrpura. Sua qualidade enquanto ator está sendo questionada pelos comentadores de Internet. Sua atitude está sendo tomada pela mídia como inadequada para um negr... Oops artista. Estão dizendo que ele deveria tratar a senhora branca que o confundiu com um garçom desuniformizado, com respeito, cautela e educação, até mesmo por respeito a seu público. Afinal de contas não há intenção racial na confusão “inocente” da senhora. E ainda que Luis Miranda tenha dito que sua revolta não se deu pelo fato de ser comparado a um garçom [geralmente os garçons no Brasil são negros], todos estão dizendo que ele foi preconceituoso com a classe.

Acredito que se não estivéssemos em 2016, onde as agressões estão amparadas pelo “anonimato” da Internet, Luis Miranda teria sido espancado fisicamente, assim como Sofia. E teria tido seu trabalho artístico boicotado, e toda a sua riqueza intelectual usurpada.

Sofia não teve força sozinha. Mas a sua rebeldia a rendeu um lugar na história, mesmo tendo ela sido obrigada a trabalhar como empregada doméstica da senhora branca em tempo integral. Sem o direito de ver os filhos crescerem, apenas para a felicidade, a tranquilidade e a paz da senhora branca que foi inocente e amável para com Sofia. A senhora branca não fez nada demais, ela apenas estava dizendo para Sofia se manter em seu lugar, assim como no Brasil, estamos pedindo para que Luis Miranda não tente ser nada além de um garço... Oops, um preto.

Diante do que tem acontecido no Brasil, é pensamento comum acreditar que, não importa o que digam as vozes de Sofias e de Luises. Essas vozes parecem continuar não sendo ouvidas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

36a Arte


arte para lembrar a vida
arte para comover a vida
arte para revelar a vida
arte para abstrair a vida
arte para embelezar a vida
arte para maquiar a vida
arte para desconstruir a vida
arte para denunciar a vida
arte para falar à vida
arte para matar a vida
arte para construir a vida
arte para viver a vida
arte para encontrar a vida
arte para amar a vida
arte para odiar a vida
arte para entender a vida
arte para esquecer a vida
arte para brincar a vida
arte para sentir a vida
arte para usurpar a vida
arte para durar a vida
arte para abreviar a vida
arte para torturar a vida
arte para alegrar a vida
arte para destruir a vida
arte para emancipar a vida
arte para acordar a vida
arte para forjar a vida
arte para escrever a vida
arte para cantar a vida
arte para encenar a vida
arte para atuar à vida
arte para pintar a vida
arte para esculpir a vida
arte para dançar a vida
arte arte arte arte arte
para para para para para
a       a      a      a    a
vida vida vida vida vida




Música: Even If We Try – Night Beds

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Videoclipe de Volta do Silva


Confesso que não esperava Volta ser o terceiro single de Vista Pro Mar de Silva, isto porque tenho as minhas favoritas, claro. Nunca imaginei que versos tão romanticamente redondos, por seu lirismo e idealização ampla das relações amorosas conseguissem furar a linearidade dos lançamentos que Silva e sua gravadora vinham desenhando até aqui. Mas, ainda bem que me surpreenderam, gosto disso. O vídeo foi feito no país de Angola, dentro da África, e segue uma tendência global com representações do cotidiano noir de um País lusófono já apresentado por Ayo, Pumeza [Matshikiza], responsável por um solo impecável de Mio Babbino Caro, Solange [Knowles] com o seu videoclipe de Losing You e a francesa Inna Modja.

Tenho me vislumbrado bastante com a redescoberta da cultura popular, da métrica, do costume, do escavar profundo. Da tessitura cotejada. Tenho gostado cada dia mais de viver as músicas que eu aprecio. E estou cada dia mais apaixonado por Silva. Há um trecho em Volta que me fascina, porque sou do tipo de pessoa que se deixa impressionar pelo óbvio que ulula e pulula de dentro para fora, e que depois volta a penetrar às narinas; o trecho dessa música está logo em seu início e diz: “Quem é de mim não se esconde, nem recusa o meu olhar”. No momento essa música me fala com voz de quem apenas ouve, mas que não sente a incerteza de quem devesse se ocultar. Acho que é mais ou menos isso.

A direção do vídeo é do Angelo Silva e William Sossai, que também assina a fotografia. Em Angola o músico brasileiro contou com a produção da Batuque Filmes, e com a produção executiva de Ademir Cavalcanti e coordenação de produção de Laura Lins. O vídeo foi lançado hoje. E eu adorei!